Três novas exposições inauguram temporada de 2021 no maat

Um novo capítulo no maat traz ao palco central temas importantes relativos ao nosso futuro coletivo, investigando as complexidades dos princípios sociais, ambientais e geopolíticos que definem a nossa era atual. As exposições abrem ao público no dia 5 de abril de 2021. 

 

X não É Um País Pequeno - Desvendar a Era Pós-Global

X não É Um País Pequeno — Desvendar a Era Pós-Global é uma exposição que explora a nossa atual condição pós-global, observando em diferentes escalas – territórios, cidades, infraestruturas, plataformas, corpos, objetos – os processos de desglobalização e realinhamento geopolítico que, em muitos casos, foram acelerados e distorcidos em ciclos de fluxo e revisão em rápida evolução durante a atual pandemia.

Doze anos após a crise financeira global ter exposto as falhas da globalização, o que em tempos foi uma euforia de interconetividade deu origem a uma condição mais complexa. Guerras comerciais, crises de refugiados, nacionalismo crescente, Brexit – e, agora, uma pandemia global – estão a perturbar e a reordenar o fluxo transnacional de pessoas, ideias e recursos de formas cada vez mais confusas.

O título da exposição refere-se a um cartaz icónico de Henrique Galvão (“Portugal não é um país pequeno”), que em 1934 promovia a ideia nacionalista do então governo de Portugal: uma nação “pluricontinental” cujas possessões ultramarinas não eram colónias, mas sim partes integrantes do território soberano. As formas como muitas destas antigas relações coloniais foram alteradas formaram um ponto de partida para a exposição.   

Com curadoria de Aric Chen, com Martina Muzi, a exposição apresenta nove projetos recentemente criados por profissionais internacionais que trabalham em design, arquitetura e arte e que investigam, articulam e criticam o atual estado convoluto do mundo a partir de múltiplas perspetivas geográficas.

Através de uma intervenção performativa na fronteira entre os EUA e o México; do acesso a um conjunto arqueológico de objetos comercializados em massa em países como a China e a Índia; da viagem digital pelos efeitos devastadores da extração de petróleo no Delta do Níger; ou mergulhando na intima ligação de fenómenos como a migração, a privação de direitos e o capital pós-colonial na Lisboa periférica, o cenário da exposição enquanto observação pós-global é definido não por noções utópicas de liberdade e agência, mas sim por flutuações de acesso e restrição.

A exposição inclui uma apresentação especial de Teeter Totter Wall do estúdio Rael San Fratello, que ganhou o prémio Beazley Design of the Year 2020.

A identidade visual e o projecto gráfico desenvolvidos por Joana Pestana, com Max Ryan, refletem o desafio de articular as complexidades da ordem global através da utilização de diferentes fontes de dados que se baseiam em diferentes fenómenos planetários e a aparente aleatoriedade dos sistemas de colisão à escala.

Com projetos de Bard Studio (Rupali Gupte e Prasad Shetty), Bricklab (Abdulrahman Hisham Gazzaz e Turki Hisham Gazzaz), Ibiye Camp, Revital Cohen & Tuur van Balen, He Jing, Liam Young, Paulo Moreira (com Chão - Oficina de Etnografia Urbana e José Sarmento Matos), Rael San Fratello (Ronald Rael e Virginia San Fratello) e Wolfgang Tillmans.

 

Earth Bits - Sentir o Planeta

Earth Bits – Sentir o Planeta é uma instalação baseada em dados que foi encomendada ao estúdio de investigação e design interativo Dotdotdot. A exposição descodifica as complexidades da ciência climática, medindo a pegada de carbono provocada pelos humanos através de conteúdos gráficos e digitais, vídeos de animação e uma estação interativa.

Esta obra inédita foi desenvolvida com o apoio científico da Agência Espacial Europeia (ESA), da Agência International de Energia (IEA) e da EDP (Energias de Portugal) Inovação. As quatro partes da instalação demonstram a forma como o fluxo mundano das emissões humanas está ligado de forma vital aos biossistemas dos recursos terrestres, e apresentam as causas e os efeitos da rápida destruição que delas resulta.

Estes quatro momentos representam uma viagem gradual através de conjuntos interligados de fenómenos, escalas e perceções. Começando por contextualizar o tema com uma visualização de dados sobre a evolução dos padrões de consumo de eletricidade em Portugal ao longo do biénio 2019–2020, a instalação abre com um mural gráfico de 12 metros de comprimento que ilustra de forma meticulosa os mecanismos de recolha e extração que alimentam quase todas as nossas ações ao longo de 24 horas.

Num ambiente audiovisual e imersivo separado, surgem duas componentes em interação. A primeira é o “misturador de CO2” — uma consola interativa para múltiplos utilizadores com uma interface gráfica animada, concebida para identificar o impacto ambiental das ações humanas individuais, medidas através da sua pegada de carbono. Ao inserir valores individuais, i.e., escolhas, nos controladores em categorias como Nutrição, Mobilidade e Habitação, o interface animado calcula e apresenta os seus efeitos acumulados em diferentes escalas territoriais; permite também consultar e comparar dados qualitativos e quantitativos acerca do impacto negativo das práticas industriais e das tendências consumistas, e ainda calcular os efeitos em relação às previsões de aquecimento formuladas por diferentes políticas e cenários de ação a nível mundial. Um programa de sonorização de dados concebido para a instalação estabelece ligações entre a consola e uma paisagem musical que espelha os graus mensurados de impacto negativo ou positivo. A segunda é um vídeo compilado com dados recolhidos através do Copernicus, da ESA, um programa de “sentinelas” que analisam e monitorizam a Terra. Através de imagens e dados de satélite originais, esta posição cosmológica estratégica oferece uma perspetiva e explicação da correlação histórica entre o aumento da emissão antrópica de gases com efeito de estufa (GEE) e fenómenos que destroem o ambiente, como cheias, secas e incêndios.

Earth Bits é um projeto em dois anos, e a segunda fase será lançada em março de 2022 com conteúdos adicionais e atualizados. Este projeto é viabilizado por uma parceria continuada com a Novo Verde e a ERP (European Recycling Platform) Portugal.

Este projeto inaugura o maat Explorations, um enquadramento programático lançado em 2021 que inclui uma série contínua de exposições e de projetos públicos e educativos que mergulham na temática multifacetada da transformação ambiental a partir de várias perspetivas académicas e experimentais.

Em parceria com: Novo Verde e ERP (European Recycling Platform) Portugal.

 

AQUARIA - Ou a Ilusão de Um Mar Fechado

Aquaria – Ou a Ilusão de Um Mar Fechado é uma exposição que reflete sobre possibilidades e novas questões que o repensar da nossa relação com o mundo marinho poderia pressupor. Os aquários são dispositivos que organizam e representam a vida marinha, sistemas complexos que, no paradigma da modernidade e da urbanização, personificam a transformação da natureza em cultura, graças ao apoio da tecnologia e do capital. Esta separação da cultura como uma entidade divorciada do mundo orgânico-natural deriva de tentativas científicas e racionais de categorização e organização. Porém, este tipo de construções que dividem a cultura da natureza já não é convincente no âmbito de um novo regime climático que apela a novas narrativas que vão para lá das hierarquias que giram em torno do homem e da sua exploração de recursos e corpos.

Com curadoria de Angela Rui, o percurso da exposição desenrola-se através de onze instalações que oferecem pontos de vista que servem para realçar de que modo foram as formas de compreensão do ambiente marinho outrora concebidas e devem hoje ser repensadas.

Como parte da exposição, foi encomendado a Armin Linke um filme, realizado inteiramente nos bastidores do Oceanário de Lisboa, que examina a multidimensionalidade da arquitetura aquática, na qual as maravilhas da natureza são exibidas através de tecnologia escondida e bem orquestrada.

A documentação histórica apresentada, desde meados do século XIX até aos nossos dias, entra em diálogo com as obras contemporâneas, contextualizando posições de base ocidental sobre políticas institucionais, exibição naturalista, ligações com as grandes Exposições Universais, expedições científicas e atividades coloniais e extrativas em relação a outras geografias.

Olhando para a natureza dos aquários e a relação distinta entre espaços e cenas técnicas, o design expositivo concebido pelo estúdio 2050+ trabalha sobre as noções de interface e limiar, mostrando duas categorias de dispositivos espaciais: um sistema industrial de exposições para acomodar o material de investigação e uma sequência fluida para orquestrar as instalações dos artistas. A instalação atua como um aquário expandido, onde as relações hierárquicas são neutralizadas.

O projeto gráfico e a identidade visual desenvolvidos pelo Studio òbelo visa perturbar o olhar do espectador, despertando uma consciência autorreflexiva das ambiguidades da perceção, tomando a figura do Cubo Necker (1832) como ponto de partida e conceptualizando o aquário numa série de cubos impossíveis.

Com projetos de Revital Cohen & Tuur Van Balen, Julien Creuzet, Simon Denny, Marjolijn Dijckman & Toril Johannessen, Michela de Mattei, Alice dos Reis, Eva Jack, Joan Jonas, Armin Linke, Superflex e Stef Veldhuis.

25 Fev 2021