Grande Prémio Fundação EDP Arte "incentiva o criador a continuar"

Imagem a obra de Lourdes Castro

"Grand Herbier D'Ombres", obra de Lourdes Castro (vencedora do Grande Prémio Fundação EDP Arte 2000), na exposição "Um Oásis ao Entardecer", patente no maat em 2020.

 

“Apontámos sempre para artistas cuja imagem era menos conhecida do que a densidade e profundidade da sua obra merecia que fosse”, resume João Pinharanda. E sublinha: estamos perante “artistas significativos, mesmo que por vezes controversos, mas ausentes dos média e desconhecidos do público generalista”. É assim que o consultor e crítico de arte, atual diretor do Centro Cultural Português de Paris, do Instituto Camões, descreve a importância do Grande Prémio Fundação EDP Arte, que assinala agora 21 anos. João Pinharanda foi um dos mentores da iniciativa e esteve como membro do júri ao longo das primeiras sete edições.

“Pensámos principalmente em dar a conhecer em vez de reafirmarmos o já conhecido. Nesse sentido acho, hoje, que o objetivo foi plena e coerentemente alcançado. Apenas nos terá faltado alargar o número de mulheres artistas premiadas”, afirma. A ideia do Grande Prémio nasceu do convite que lhe foi feito em 2000 pelo então presidente da EDP, Mário Cristina de Sousa, para pensar um prémio de pintura. “Foi entendido que, para além desse, faltavam, no contexto nacional, entre outros, um prémio de consagração mais global, não ligado ao tempo curto, mas sim ao tempo longo de trabalho e a uma certa necessidade de revelação dessa obra a um público que a desconhecia”, explica João Pinharanda.

Em 2000, a primeira edição do Grande Prémio Fundação EDP Arte distinguiu Lourdes de Castro, “nome indiscutível na galeria dos artistas portugueses da segunda metade do século XX”, como então justificou o júri. Seguiram-se Mário Cesariny (2002), Álvaro Lapa (2004), Eduardo Batarda (2007), Jorge Molder (2010), Ana Jotta (2013) e Artur Barrio (2016). E agora Luisa Cunha (2021).

Na opinião de Jorge Molder, o Grande Prémio “não pode ser desarticulado” de uma outra iniciativa da Fundação EDP, o Prémio Novos Artistas — surgiram, aliás, no mesmo ano. O Grande Prémio Fundação EDP, nota o fotógrafo e antigo diretor do Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, representa o “reconhecimento do valor atribuído a uma obra, é como que uma máquina de reconhecimento e consagração”.

Será caso para se dizer que o Grande Prémio Fundação EDP Arte é a cereja no topo do bolo, no que ao trabalho de um criador diz respeito? Jorge Molder agarra esta imagem e ironiza: “É uma cereja, mas não fica no topo, paira sobre a obra, encoraja o artista a trabalhar mais. Não é daqueles prémios que se atribuem quase a título póstumo, quando o artista está no ocaso. Podemos dizer que é um prémio dinâmico e muito importante, porque incentiva o criador a continuar.

O galardão é hoje considerado um dos mais importantes no domínio das artes visuais em Portugal. Surgiu no mesmo ano em que a Fundação EDP começou a constituir uma coleção de arte contemporânea. A Coleção de Arte da Fundação EDP inclui hoje cerca de 2.450 obras de mais de 295 artistas portugueses e surge com frequência na programação do maat - Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia, que também pertence à Fundação EDP. Ou seja, analisa Jorge Molder, referindo-se a todas esta valências, estamos perante “uma política consistente, uma estrutura museal e dois prémios fundamentais, um de reconhecimento e outro de incentivo.”

Tanto quanto João Pinharanda se recorda, a escolha dos jurados tem sido sempre por unanimidade, “o que não deixa de implicar mais ou menos longas discussões sempre muito produtivas e esclarecedoras e que servem para sustentar a escolha final”, revela. “As exposições e catálogos que apresentámos como corolário de cada prémio têm dado sempre razão às escolhas de cada edição”, sublinha o crítico e curador. Já sobre uma possível linha de coerência entre todos os criadores distinguidos até hoje, é menos categórico: “O modo como a produção artística portuguesa se desenvolve, o alto grau de individualismo na linguagem de cada artista só nos permite estabelecer linhas artificiais de articulação entre cada autoria individual. Há uma radical heteronímia na realidade criativa portuguesa que enriquece o panorama dificultando qualquer esforço de síntese.” Bruno Horta

07 Abr 2021