Eduardo Batarda: crítico de costumes | Fundação EDP

Eduardo Batarda: crítico de costumes

Foto de uma exposição
"Outra vez não, Eduardo Batarda", exposição antológica no Museu de Serralves em 2011, na sequência da atribuição do Grande Prémio Fundação EDP Arte 2007 ao artista. Foto: cortesia Fundação de Serralves..


Eduardo Batarda, um dos mais notáveis artistas dos últimos 60 anos da arte portuguesa, faleceu aos 82 anos de idade, no dia 19 de setembro.

Podemos destacar vários níveis na dimensão da sua influência: como artista, também como professor, durante três décadas, na Escola Superior (depois Faculdade) de Belas Artes do Porto e ainda como erudito, possuidor de uma das mais vastas bibliotecas sobre arte renascentista e barroca, que recentemente doou à da FCSH da Universidade Nova.

Nascido em Coimbra em 1943, estudou Medicina antes de se formar em pintura, em 1968, na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa. Partiu para Londres no início da década de 1970 onde conviveu com Paula Rego e outros intelectuais portugueses em exílio artístico ou político. Regressou logo após o 25 de Abril desenvolvendo uma vasta produção visual, repartida por diversas séries ou períodos temáticos e formais bem diferenciados.

Foi celebrado pelas suas aguarelas antes de se ter dedicado inteiramente à pintura. A minúcia e perfeccionismo que colocava na realização de todas as suas obras iam a par de uma feroz consciência crítica e autocrítica sobre a realidade política, social e cultural do seu tempo português e ocidental. Se nas suas aguarelas, pelo seu caráter figurativo, essa dimensão era evidente e imediatamente incómoda, na pintura abstrata, que ocupou toda a sua produção a partir da década de 1980, a vertente crítica revela-se nos densos jogos de palavras, nos títulos ou nas sucessivas inscrições explícitas ou cifradas com que recobre a superfície de muitas das obras.

Em 2007, a Fundação EDP, que tem na sua colecção várias das obras do artista, atribuiu o seu Grande Prémio a Eduardo Batarda tendo a exposição consagratória tido lugar, a seu pedido, no Museu de Serralves, no Porto. Em 2016 realizou no MAAT a sua última grande exposição individual, Misquoteros, onde as características hipercríticas, profundamente eruditas e de humor sarcástico da sua obra se afirmavam ao ponto de nos colocar perante três dezenas de telas de grande dimensões inteiramente cobertas por um texto poderia ser lido em contínuo confirmado por um lado as suas também extraordinária qualidades de escrita e, por outro, o eterno jogo de sentidos da sua obra.

 

João Pinharanda
Historiador e crítico de arte e diretor do MAAT - Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia.

 

 

19 Set 2025