ÂNGELA FERREIRA. PAN AFRICAN UNITY MURAL

 

Pan African Unity Mural

De 28 junho a 8 outubro

MAAT
 

Ângela Ferreira é uma das mais importantes artistas portuguesas contemporâneas e uma das que em Portugal primeiro levantou questões pertinentes sobre condição colonial, pós-colonial e neocolonial no início da década de 1990.  Neste novo trabalho, a artista escolheu como temas de investigação, a cantora, música e ativista anti-apartheid sul-africana Miriam Makeba, e George Wright, apoiante do Black Panther Party e um fugitivo dos Estados Unidos da América, um casal lendário que após várias peripécias políticas encontraria refúgio na África Ocidental.
 

A própria artista tem um papel de protagonismo na narrativa da exposição, evidenciando uma característica do trabalho de Ferreira, que passa pelas intersecções de acontecimentos históricos com a sua própria biografia e, por consequência, com a construção da sua identidade. A instalação que concebeu para a Project Room do MAAT - um friso de pinturas e desenhos, de esculturas e som – cruza precisamente a sua biografia com a de Miriam Makeba e de George Wright /Jorge dos Santos.

Ângela Ferreira  nasceu e foi criada na então colónia portuguesa de Moçambique. O inicio da sua carreira foi marcada artística e politicamente pela sua experiência do apartheid durante os seus estudos e primeiros anos de prática artística na África do Sul. Como a artista revela numa entrevista com a curadora Katarina Pierre, publicada no catálogo da exposição: "Perguntei a mim própria quem eu era quando me confrontei com a vida na brutalidade do colonialismo e do apartheid. Como reagi eu naquela época e o que significa isso agora? Criar uma obra de arte sobre isto pareceu-me uma boa maneira de começar – é uma plataforma aberta, criativa e internacional que não impõe interpretações." 

A artista regressa, assim, a um mural colaborativo pintado na Casa Comunitária da Cidade do Cabo (1986)  por um grupo de artistas (que integrou a própria Ângela Ferreira), incorporando nas paredes do espaço expositivo não apenas as imagens do original, mas também novos desenhos de várias arquiteturas que integram a narrativa do projeto.  

A interligação de todos os elementos da instalação torna-se aparente através de uma torre, um símbolo que Ângela Ferreira tem usado ao longo de toda a sua prática artística para evocar a esfera pública e política. É de destacar a importância que a artista dá à arquitetura como uma extensão dos significados políticos, sociais, antropológicos e pessoais. A escultura refere-se igualmente ao mural Pan American Unity Mural do pintor mexicano Diego Rivera, cuja obra foi particularmente relevante para os artistas sul-africanos que se opunham ao apartheid.

O Pan African Unity Mural baseia-se no conceito de zona de contacto para reivindicar o abandono de construções de identidade simplistas A sua sensibilidade decorrente do facto de viver entre culturas, sensibilidade partilhada por muitos africanos, constitui a força motora que leva Ângela Ferreira a explorar em profundidade noções que vão além de centros e de periferias, destacando a importância da perspetiva.

A exposição tem curadoria de Jürgen Bock. 

 

02 Jul 2018