Na morte de Eduardo Lourenço

Eduardo Lourenço foi um dos grandes portugueses do nosso tempo. Nada do que de importante ou significativo aconteceu lhe passou ao lado e tudo foi atravessado pela sabedoria da sua palavra, pela lucidez da sua inteligência e pela vastidão da sua cultura. Desde a juventude, o autor de “Pessoa Revisitado” tudo observou com um pensamento original e activo.  

Português, europeu e cidadão do mundo, pensou criticamente, com  filosófico poder de análise e poético dom de síntese, os grandes temas da nossa história (e também os seus esconderijos e enganos) e os grandes tópicos da nossa cultura (e sobretudo os seus tótemes e tabus).

Com persistente atitude heterodoxa e vocação de “psicanalista do destino”, de decifrador de imaginários e de desconstrutor de mitologias, ele fez autênticas revoluções – que foram verdadeiras revelações – na forma como nos víamos e como olhávamos figuras e obras, acontecimentos e temas,  recalcamentos e medos.

De Oliveira Martins ou Pessoa à descolonização, de Camilo ou Eça à televisão, de Marx ou Heidegger à “Europa desencantada”, de Camões ou Pascoaes a “Portugal como Destino”, de Dom Sebastião ou Salazar ao “Brasil como fascínio e miragem”, de Antero ou Soares à “esquerda na encruzilhada”,  de Nietzsche ou Foucault  ao “esplendor do caos”,  ele era, de facto, um homem que via de outra maneira: mais original, mais profunda e mais ampla.

Para Eduardo Lourenço, nada do que é humano lhe era indiferente. A  filosofia, a história, a política, o jornalismo, a literatura, a arte, a música, o cinema, o próximo e o distante, a criação e a destruição, a permanência e a mudança, a vida e a morte, tudo mereceu a sua atenção intensa e a sua reflexão incansável. Em ensaios, estudos críticos e hermenêuticos, artigos de jornal, entrevistas. conferências, diários, com um estilo em que o fulgor verbal, a criação de conceitos e a invenção de imagens eram inseparáveis de uma cultura que parecia infinita, Lourenço fez da escrita uma função vital e uma respiração quotidiana.

Basta percorrermos os títulos e os índices das obras que nos legou para ficarmos assombrados com a extensão e a profundidade dos seus interesses e conhecimentos; para ficarmos deslumbrados com a variedade e a vivacidade da sua intervenção intelectual.

Eduardo Lourenço foi o leitor mais constante, competente e sagaz do nosso tempo e do nosso mundo, sendo não raro o fio de Ariadne no labirinto que um e outro formam.

No centro do silêncio que toda a morte convoca, a obra de Eduardo Lourenço continuará a falar-nos com perguntas e respostas, com evocações e juízos, com restituições e renovações. Eis a sua eternidade, aquela que perscrutou, como se não lhe tivesse sido dada outra missão na vida senão essa.

Desde há uma década que a Fundação EDP tem sido o mecenas exclusivo da inventariação, tratamento, estudo e investigação das milhares de páginas que o autor de O Labirinto da Saudade escreveu, durante a sua longa vida de quase um século, e que constituem um acervo valiosíssimo e um património fundamental da nossa cultura.

É a partir desse precioso acervo e do trabalho metódico e exaustivo nele feito por uma equipa especializada, que beneficiou do acompanhamento do autor, que está em curso a edição das Obras Completas de Eduardo Lourenço, com a chancela da Fundação Calouste Gulbenkian, e deste modo realizada com a colaboração do Centro Nacional de Cultura e da Fundação EDP.

No momento triste da sua morte, a Fundação EDP evoca a presença, a proximidade e a colaboração que sempre manteve com Eduardo Lourenço (integrou júris, escreveu textos, participou em projectos). Com saudade, testemunha o seu fundo pesar e presta um sentido tributo à sua memória.

Ao apoiar, com orgulho, o tratamento e o estudo do acervo de Eduardo Lourenço, a Fundação EDP tem a consciência de que este é um dos seus mais valiosos e duradouros contributos para a cultura e para o futuro que a partir do presente se cria.  

 

A FUNDAÇÃO EDP

01 Dec 2020