Exposições

New World Parkville

Margarida Correia

22 julho a 18 setembro 2011

Lisboa

Museu da Eletricidade

Sala do Cinzeiro 8

Uma águia em loiça. Os livros de Beatriz Costa. Vinis de João Villaret, Amália Rodrigues, Maria Albertina, Fernando Farinha. Os diálogos de Lélé e Zequinha. A estampilha de Nossa Senhora de Fátima, em sépia. Memórias saudosistas da comunidade emigrante portuguesa de Parkville, em Hartford, no Connecticut, para onde no início do século XX os homens foram trabalhar nas fundições ou nas fábricas de máquinas de escrever e as mulheres encontravam emprego nas fábricas de vestuário.

New World Parkville teve início em 2009, como um projeto de arte pública, encomendado pela Real Art Ways, uma organização alternativa de artes de Hartford. Margarida Correia mergulhou na comunidade emigrante portuguesa, conheceu personagens como o locutor de rádio Manuel Gaspar e João Alves, filho da fadista Maria Alves. Ouviu as suas histórias e pesquisou nos seus arquivos pessoais.

New World Parkville foi originalmente apresentado em banners nas ruas daquele bairro norte-americano, à entrada do qual foi colocado um outdoor com uma panorâmica da Praia da Nazaré, referida por muitos emigrantes como uma das suas mais fortes memórias fotográficas de Portugal.

 

Biografia

Margarida Correia nasceu em Lisboa, em 1972. Vive e trabalha em Nova Iorque.
Obteve o Mestrado em Fotografia na School of Visual Arts em Nova Iorque (EUA), a Licenciatura em Pintura na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa e o Bacharelato em Artes Plásticas na Escola Superior de Artes e Design de Caldas da Rainha, Portugal. Realizou a primeira exposição individual, Shining, na Faculdade de Belas-Artes de Lisboa (1998) e mais recentemente apresentou Ofício no Museu de São Roque em Lisboa (2010) e New World Parkville, no Real Art Ways (Hartford, EUA, 2009). Das exposições coletivas em que participou destacam-se, entre as últimas, Gallery Registered, White Columns (Nova Iorque, 2009); Hanging Out at No Rio, ABC No Rio (Nova Iorque, 2009); Portrait Show, Vermont Center for Photography (Vermont, EUA, 2008); In the Country of Last Things, Galeria Aferro (Nova Jersia, EUA, 2008); How Soon is Now? , Bronx Museum of The Arts (Nova Iorque, 2008).

 

«ONDE FICA A MINHA PÁTRIA? 

É talvez a pergunta que os protagonistas destas fotografias fazem a si mesmos. Mas é também uma pergunta que nos podiam fazer a nós, que os olhamos. Podia ter escrito: a nós, que os olhamos ‘’de fora’’. Mas, a discriminação que a pergunta assim formulada pressupõe leva-nos a usar de alguma cautela.

É verdade que a realidade portuguesa, seja qual for a forma que assume no imaginário de cada protagonista, lhe serve de inequívoca referência simbólica. Mas apenas organiza espaçadamente as suas vidas em lugares/momentos específicos, não o seu quotidiano americano. Este é regido por horários, programas, leis e regras locais. Digamos que isso os coloca como portugueses “lá fora”.

Porém, é para Portugal, entidade mítica e de incerta definição, que remetem todas as referências que estas fotografias testemunham. Por exemplo: ao produzirem, cantarem e ouvirem fado ou programas radiofónicos com música e temas portugueses; ao dançarem ao som e sob coreografias e trajes transpostos de um sistema de estereótipos folclóricos estabelecidos como portugueses; ao desenvolverem uma religiosidade baseada em costumes trazidos do território nacional (do culto do Espírito Santo até Fátima); ao manterem laços com a língua, terras de origem, familiares não-emigrados; ao casarem endogamicamente e ao perpetuarem rituais alimentares.

Finalmente, não há protagonista que não tenha um “dentro”, uma mais ou menos profunda interioridade que supera a visão que dele temos, a partir “de fora”. É a complexidade dessas relações que, de um modo ou de outro, nos pode ser revelada e nós podemos explorar nestas fotografias. E foi o modo como a subjetividade dos que emprestam rosto e corpo a este projeto se desenvolve aquilo que interessou Margarida Correia na formulação e avanço do seu trabalho.

A artista sempre tratou do tema da memória partilhada e da memória construída pelo/no tempo longo. Parte dos seus trabalhos mais aprofundados (Saudade, 2004-05 ou Things, 2006-07) explorava as relações entre coisas, pessoas e tempos: escolhida uma peça de roupa ou um objeto decorativo, documentado o seu uso por uma fotografia antiga, Margarida Correia encenava a sua recuperação por um protagonista recente, que posava junto ao objeto ou usava a mesma peça de roupa.

A dimensão dessa recuperação era muito pensada no feminino. O inquérito agora desenvolvido alarga os seus interesses, embora dentro de uma fronteira clara (a emigração portuguesa e a luso-descendência num território bem definido dos EUA) e através de personagens tipificados como eixos da comunidade: a cantora que garante a presença viva da voz, da música e do texto, do corpo e do gosto sentimental; o radialista e jornalista que mantém a comunidade informada e mobilizada, recorrendo à voz, ao texto (tanto memorialista como interventivo) e à música; a senhora que organiza a comunidade em torno das suas obrigações religiosas e arquiva as memórias dessa intervenção; os jovens que vestem fatos folclóricos como nunca os seus antepassados usaram para representarem papéis estereotipados que nunca os seus antepassados representaram mas que, “lá fora”, lhes garantem (podia escrever que “cá dentro” também nos garantem) o necessário reconhecimento identitário.

O modo como Margarida Correia aborda os rostos/corpos e os adereços de cada um dos quatro núcleos de protagonistas é significativo. Por um lado, apresenta-nos três retratos individuais. Não são “tipo passe” mas encenam-se na pose tradicional da pintura de retrato, que a fotografia de estúdio manteve e recuperou. Revelando os espaços interiores, ajuda-nos à construção da personalidade dos protagonistas.

Por outro lado, no grupo dos bailarinos do rancho folclórico, a opção pela dupla representação, uma com fatos tradicionais, outra com roupas do dia-a-dia e ambas em fundo neutro, tem outro sentido: um valor de tempo e espaço duplicado. Os mais novos protagonistas da série, nascidos nos EUA e profundamente enraizados na vida americana, ao vestirem os trajes, como num ritual mágico, tornam-se de novo portugueses, encarnam um passado que desconhecem mas a que se sentem de algum modo ligados.

É significativo também que sejam os “velhos” da comunidade que carregam a memória documental das suas raízes culturais (as capas de discos, os troféus e bibelots, os recortes de jornais portugueses, as fotografias dedicadas, etc.). A montagem da exposição refere muito bem esse peso, ao espalhar pelas paredes junto a cada um dos três séniores escolhidos a parafernália dessas “recordações”. Os jovens aparecem livres desse lastro cultural e sentimental: para eles o tempo é um fato que se veste e despe.

Quanto a nós, deixaremos de estar “de fora” destas pessoas (que levam nomes e sotaques portugueses) se percebermos a complexidade com que a identidade de cada um deles se constrói. Talvez isso se entenda nos olhos e na pose de alguns, na voz e nos objetos acumulados de outros. Entretanto, podemo-nos olhar no espelho e perguntar também: “Onde fica a minha Pátria?” »

João Pinharanda, Comissário